A abertura do mercado livre, a expansão das fontes renováveis, a chegada dos data centers e a intensificação dos eventos climáticos extremos estão transformando a operação das distribuidoras de energia elétrica. Para acompanhar essas mudanças, o setor precisará combinar investimentos em tecnologia, modernização regulatória, ampliação da capacidade das redes e mecanismos que garantam a sustentabilidade econômica dos serviços.
Durante apresentação sobre os desafios da distribuição, Luiz Henrique Ferreira Pinto, vice-presidente de Operações Reguladas da CPFL destacou que a velocidade das transformações exige regras regulatórias capazes de acompanhar a evolução tecnológica. A experiência com a geração distribuída demonstrou, segundo ele, a importância de estabelecer condições adequadas antes da expansão de novos modelos de negócio. Na abertura do mercado, essa preocupação é especialmente relevante para consumidores de menor renda, que podem ficar mais expostos à volatilidade dos preços e aos custos decorrentes de uma regulação incompleta.
Medição inteligente e modernização regulatória
A medição inteligente foi apontada como infraestrutura essencial para viabilizar novos modelos de relacionamento com os consumidores, ampliar a eficiência operacional e aproveitar os benefícios da digitalização.
A CPFL vem ampliando a implantação desses equipamentos em suas distribuidoras. Segundo o executivo, os consumidores do grupo A já contam com medição inteligente nas quatro distribuidoras do grupo, enquanto a expansão para o grupo B está em andamento.
A estratégia inclui uma rede própria de comunicação baseada na tecnologia mesh. O plano apresentado prevê cobertura integral nas três distribuidoras do grupo em São Paulo e de 30% da área atendida no Rio Grande do Sul. A interoperabilidade entre equipamentos e sistemas foi destacada como condição importante para integrar diferentes tecnologias e preparar a infraestrutura para as necessidades futuras.
O avanço, entretanto, depende de ajustes regulatórios que reconheçam adequadamente os investimentos realizados. Na avaliação do executivo, os mecanismos atuais podem desestimular a adoção de tecnologias modernas quando medidores convencionais recebem remuneração mais favorável do que os inteligentes.
Como esses equipamentos têm vida útil limitada, atrasos no reconhecimento tarifário comprometem parte do retorno esperado. A expectativa é que mudanças nos mecanismos de produtividade e remuneração da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) contribuam para corrigir essa distorção e acelerar a digitalização.
Baterias ampliam a flexibilidade operacional
O crescimento das fontes eólicas e solares, combinado à expansão da geração distribuída, aumentou a variabilidade da geração e da carga. Nesse cenário, as baterias podem desempenhar papel importante para absorver flutuações, melhorar o aproveitamento da energia disponível e aumentar a confiabilidade do fornecimento.
Segundo o executivo, o sistema elétrico brasileiro passou de uma configuração historicamente concentrada em grandes hidrelétricas para outra, com fontes renováveis distribuídas geograficamente e maior variabilidade operacional. A geração distribuída acrescenta complexidade ao inserir produção de energia nos próprios centros de consumo.
A CPFL está desenvolvendo um projeto para instalar sistemas de armazenamento em cinco estações de base, visando aumentar a confiabilidade do atendimento a pequenos municípios. De acordo com a apresentação, a solução com baterias mostrou-se economicamente interessante diante da alternativa de construir um novo circuito, considerando as distâncias e as características da carga.
O armazenamento também deverá ganhar relevância com a expansão dos veículos elétricos, cuja recarga residencial pode alterar os horários de maior demanda e exigir novas estratégias de planejamento e operação.
Novas funções para as distribuidoras
A transformação tecnológica amplia o papel das distribuidoras, que passam a assumir funções mais complexas de monitoramento e coordenação do sistema. A CPFL já realiza o gerenciamento da geração de determinadas usinas a pedido do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), segundo o executivo.
Essa atividade exige sistemas digitais, capacidade de processar grandes volumes de dados e procedimentos adaptados às características das novas fontes. Entretanto, parte da infraestrutura existente não foi projetada para esse modelo.
O executivo citou usinas de biomassa associadas a unidades industriais de açúcar e etanol, nas quais o desligamento da geração pode afetar também outras instalações. Situações como essa evidenciam a necessidade de adaptar equipamentos e procedimentos para permitir o controle da geração com segurança e precisão.
Data centers exigem reforços na infraestrutura
A expansão dos data centers representa outro desafio, especialmente no estado de São Paulo. O executivo ressaltou que esses empreendimentos precisam ser avaliados não apenas pelo consumo de energia, mas também pela potência necessária para atender cargas elevadas e contínuas.
Mesmo com oferta abundante de geração, a conexão de grandes consumidores pode exigir investimentos em subestações, transformadores e redes de distribuição e subtransmissão. A disponibilidade de energia, portanto, não elimina a necessidade de ampliar a capacidade local de atendimento.
Segundo os dados apresentados, a CPFL já acumulava aproximadamente 1,2 GW em contratos relacionados a data centers. Na região de Campinas, o executivo mencionou a necessidade de ampliar a infraestrutura em cerca de 350 MW em dois anos, além de outros 600 MW previstos para entrada e 1.200 MW contratados.
A localização desses empreendimentos é favorecida, entre outros fatores, pela proximidade entre a infraestrutura elétrica e as redes de fibra óptica. Para atender à expansão, será necessário antecipar investimentos e coordenar o planejamento das redes com os cronogramas de implantação dos projetos.
Diante dessas necessidades, o executivo defendeu a revisão das prioridades na alocação de recursos do setor elétrico, resumida na proposta de “trocar subsídio por investimento”. O objetivo é direcionar recursos para a modernização e a expansão da infraestrutura, sem transferir indiscriminadamente os custos aos consumidores.
Resiliência diante dos eventos climáticos extremos
A adaptação às mudanças climáticas foi apresentada como prioridade para garantir a continuidade do fornecimento. A CPFL estruturou um plano de resiliência baseado em três frentes: robustez da rede, rapidez na resposta às ocorrências e recuperação do serviço.
Para identificar os pontos mais vulneráveis, a empresa desenvolveu estudos com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Climatempo. Ela dividiu a área de concessão em quadrículas e estimou a probabilidade de eventos extremos e os investimentos necessários para reduzir seus impactos.Os resultados subsidiaram a revisão dos padrões construtivos da rede.
A resposta às ocorrências também depende de automação e logística operacional eficiente, com equipes e recursos preparados para acelerar o restabelecimento do fornecimento. A recuperação após eventos severos completa essa estratégia.
A experiência reforça que a resiliência exige mais do que equipamentos robustos: depende de planejamento baseado em riscos, investimentos direcionados e capacidade de mobilização operacional.
Regulação e investimentos para o futuro
A expansão das renováveis, o armazenamento, a digitalização, os veículos elétricos e os data centers estão redefinindo as exigências sobre as redes de distribuição. Ao mesmo tempo, os eventos climáticos extremos ampliam a necessidade de infraestrutura resiliente e respostas operacionais mais rápidas.
Para acompanhar esse movimento, as distribuidoras precisarão combinar investimentos tecnológicos, planejamento de longo prazo e aprimoramento regulatório. O reconhecimento adequado dos custos, a definição de regras para novas funções operacionais e a revisão dos incentivos econômicos serão fundamentais para viabilizar a transformação.
O desafio vai além de ampliar a rede elétrica: é preparar a distribuição para operar um sistema mais descentralizado, variável e intensivo em tecnologia, mantendo a confiabilidade do fornecimento e a sustentabilidade econômica do serviço.





