A transição energética, o avanço da inteligência artificial e a expansão de tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de armazenamento ampliam a demanda mundial por minerais críticos. Essenciais para a fabricação de equipamentos e para diferentes setores industriais, esses recursos também ganharam importância nas relações geopolíticas e nas estratégias de segurança econômica. Nesse cenário, o Brasil reúne oportunidades para ampliar sua participação no mercado internacional, mas precisa avançar em financiamento, processamento industrial, tecnologia e políticas públicas.
O assunto foi debatido no painel Minerais Críticos e Valor Industrial, durante o Energy Summit – 10 Energy Megatrends 2026, com a participação de Patrícia Muricy, sócia-líder de Energia, Recursos e Indústria da Deloitte Brasil, e Marcelo Juliano de Carvalho, diretor de Resources VP da Associação de Minerais Críticos e executivo da MeteoricResources.
A mineração deixou de ser um tema restrito ao setor mineral e passou a integrar discussões sobre economia, tecnologia, segurança nacional e relações internacionais. Para Patrícia, essa mudança está diretamente relacionada à presença dos recursos minerais em praticamente todas as cadeias produtivas contemporâneas.
No Brasil, 27 elementos minerais são considerados estratégicos. A classificação de minerais críticos ou estratégicos, porém, varia de acordo com os critérios adotados por cada país. De maneira geral, os minerais críticos estão associados à necessidade de garantir o abastecimento de recursos importantes para a economia e a segurança nacional, enquanto os estratégicos também podem representar oportunidades de aproveitamento econômico e desenvolvimento industrial.
Terras raras e a concentração do mercado mundial
Um dos principais pontos da discussão foi a concentração da cadeia de terras raras na China. Segundo os dados apresentados durante o painel, o país asiático responde por aproximadamente 75% da produção mundial desses minerais e concentra entre 93% e 94% do processamento destinado à fabricação de ímãs de terras raras.
Essa dependência representa um desafio para as economias que utilizam esses materiais em setores considerados estratégicos. Os ímãs são componentes importantes para a fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos de robótica, sistemas de defesa e diferentes tecnologias industriais.
Uma turbina eólica de grande porte pode utilizar cerca de duas toneladas de ímãs de terras raras, enquanto um veículo elétrico demanda aproximadamente dois quilos desses materiais. As aplicações também alcançam equipamentos médicos, centros de processamento de dados (data centers), caças, mísseis e drones.
Na avaliação de Patrícia, a concentração da produção e do processamento tem implicações geopolíticas relevantes. A dependência de fornecedores externos pode comprometer a autonomia industrial e tecnológica de países que não possuem capacidade própria de produção e transformação. As restrições chinesas às exportações desses materiais evidenciam como o fornecimento de minerais pode influenciar decisões econômicas e estratégicas.
A importância dos minerais críticos vai além das terras raras. O germânio, por exemplo, é utilizado na fabricação de fibras ópticas, fundamentais para as comunicações. Embora tenha um mercado consumidor relativamente pequeno, sua disponibilidade é indispensável para determinadas aplicações tecnológicas.
Brasil reúne oportunidades para ampliar a produção
Para Marcelo, o Brasil tem condições de ocupar uma posição mais relevante no mercado internacional de terras raras. O País possui reservas expressivas e projetos em desenvolvimento que podem contribuir para diversificar a oferta mundial desses recursos.
Durante o painel, o executivo apresentou o empreendimento da MeteoricResources, companhia australiana que desenvolve um projeto de terras raras em Caldas, em Minas Gerais. Em fase de estruturação financeira, a iniciativa tem previsão de iniciar a produção em 2028.
A expectativa, segundo Carvalho, é que o projeto alcance uma capacidade de produção equivalente a uma parcela significativa da demanda mundial. Outros empreendimentos em desenvolvimento no País também poderão ampliar a participação brasileira nesse mercado nos próximos anos.
O potencial mineral nacional passou ainda a integrar discussões diplomáticas e comerciais com importantes economias. De acordo com o executivo, as terras raras e os demais minerais críticos estão presentes nas negociações envolvendo o Brasil, os Estados Unidos, a União Europeia e a China.
Essa posição abre oportunidades para o País diversificar mercados, atrair investimentos e participar de cadeias produtivas fundamentais para a transformação energética e tecnológica.
Agregação de valor exige investimentos e políticas públicas
Apesar das perspectivas favoráveis, a exploração das reservas não garante, por si só, maior protagonismo industrial. Na visão de Carvalho, um dos desafios para o Brasil é ampliar o processamento dos minerais e desenvolver etapas posteriores da cadeia produtiva, de modo que o País possa exportar produtos com maior valor agregado.
O desenvolvimento de projetos minerais exige planejamento, estudos geológicos, pesquisas tecnológicas e investimentos de longo prazo. Empreendimentos dessa natureza podem levar aproximadamente 15 anos entre os primeiros trabalhos de exploração e o início da produção.
Embora o licenciamento mineral brasileiro tenha avançado, ainda existem diferenças entre os procedimentos adotados pelos estados. Durante o debate, Carvalho avaliou que a nova legislação nacional abre uma oportunidade para aprimorar o ambiente regulatório e criar condições mais favoráveis ao desenvolvimento dos projetos.
Outro desafio está na competitividade. A China possui uma cadeia de processamento consolidada e capacidade de oferecer produtos a preços reduzidos. Para disputar esse mercado, o Brasil precisa criar condições que permitam viabilizar economicamente seus empreendimentos.
Entre as medidas discutidas estão incentivos fiscais, linhas de financiamento com condições adequadas e maior agilidade nos processos de licenciamento ambiental e industrial. Também é necessário fortalecer o mercado consumidor e transformador nacional, criando condições para que uma parcela maior da produção seja processada internamente.
O financiamento é especialmente importante para as empresas menores, conhecidas no setor como juniorcompanies. Essas companhias assumem riscos elevados durante a exploração mineral e, muitas vezes, precisam de recursos superiores à sua própria capacidade financeira para avançar até a fase produtiva.
Para o executivo, a participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é importante para o financiamento de projetos estratégicos. Entre os instrumentos previstos na nova legislação está a criação de um fundo garantidor, que poderá facilitar o acesso das empresas aos recursos necessários para desenvolver seus empreendimentos.
A retomada da participação do BNDES Participações (BNDESPar) em projetos de investimento também pode ampliar a presença do poder público no desenvolvimento da cadeia mineral e contribuir para atrair capital privado.
Nova legislação busca fortalecer a cadeia mineral
A aprovação da nova legislação nacional relacionada aos minerais críticos foi considerada um avanço para o setor. Sancionada em setembro, a lei estabelece uma nova etapa para a organização das políticas voltadas ao aproveitamento desses recursos.
De acordo com Carvalho, representantes do governo federal, empresas privadas, mercado de capitais e instituições de tecnologia participaram da construção da proposta. Na fase de regulamentação, a interlocução entre esses agentes continua sendo importante para estabelecer regras que estimulem investimentos sem criar obstáculos à participação do setor privado.
O País, na avaliação do executivo, precisa aproveitar a oportunidade aberta pela crescente demanda internacional. A velocidade na regulamentação e a manutenção do diálogo com os diferentes agentes econômicos serão fundamentais para transformar o potencial mineral brasileiro em projetos efetivos.
A ampliação do acesso ao financiamento e a criação de mecanismos que reduzam os riscos dos empreendimentos também poderão contribuir para que as empresas desenvolvam atividades de processamento e transformação no território nacional.
Sustentabilidade pode diferenciar a produção brasileira
Além da capacidade produtiva e da competitividade econômica, a sustentabilidade é um fator importante para o futuro da mineração. A crescente aproximação entre a atividade mineral e o consumidor final amplia as exigências por transparência, responsabilidade ambiental e rastreabilidade dos insumos.
Para Patrícia, a mineração ainda precisa melhorar sua comunicação com a sociedade. Embora seja indispensável à transição energética, à produção de equipamentos tecnológicos e à infraestrutura, sua contribuição nem sempre é percebida pelo consumidor.
Carvalho também vê a sustentabilidade como uma oportunidade para o setor. O Brasil possui condições favoráveis para desenvolver projetos com padrões elevados nessa área. Entre as práticas abordadas durante o painel estão operações de menor escala, processos de beneficiamento, recuperação das áreas exploradas, replantio e planejamento do fechamento das minas ao longo de sua vida útil.
A disponibilidade de energia de fontes renováveis também representa uma vantagem para a produção nacional. Esse diferencial pode contribuir para posicionar os minerais brasileiros em mercados que valorizam cadeias produtivas com menor impacto ambiental.
Entretanto, a produção sustentável ainda não garante, necessariamente, preços superiores. Conforme observou Carvalho, os consumidores finais nem sempre estão dispostos a pagar mais por materiais produzidos segundo padrões ambientais mais rigorosos.
Nesse contexto, a rastreabilidade pode assumir um papel importante. A capacidade de identificar a origem dos minerais e acompanhar sua trajetória ao longo da cadeia produtiva tende a ganhar relevância para empresas que precisam demonstrar a procedência e as condições de produção de seus insumos.
A mineração ilegal também prejudica a imagem de todo o setor. A distinção entre atividades clandestinas e empreendimentos regularizados, que cumprem as exigências legais e ambientais, é essencial para melhorar a compreensão pública sobre a atividade.
Conhecimento geológico e cooperação para avançar
Outro ponto abordado no painel foi a necessidade de ampliar o mapeamento geológico do território brasileiro. Apesar do potencial mineral reconhecido, ainda existem áreas que precisam de estudos mais aprofundados para identificar novas reservas e orientar futuros investimentos.
A cooperação entre empresas de diferentes portes também pode contribuir para acelerar o desenvolvimento do setor. Durante o debate, Carvalho apontou o apoio tecnológico de grandes companhias (majors) às empresas menores como um caminho para impulsionar, especialmente, as atividades de exploração mineral.
O painel evidenciou que o Brasil dispõe de oportunidades relevantes para ampliar sua presença no mercado internacional de minerais críticos. Entretanto, transformar esse potencial em desenvolvimento industrial exige uma estratégia que combine exploração, processamento, financiamento, inovação, sustentabilidade e segurança regulatória.
Mais do que ampliar a extração de recursos naturais, o desafio brasileiro é participar de forma mais abrangente das cadeias produtivas que sustentam a transição energética e o avanço tecnológico mundial.





