Energy for AI and AI for Energy inteligência artificial amplia desafios e oportunidades para o setor elétrico
Participaram do painel Hudson, Virgínia, Natália e Marcel (Foto: Acácio Morais)

Energy for AI and AI for Energy: inteligência artificial amplia desafios e oportunidades para o setor elétrico

O avanço da inteligência artificial (IA) está transformando o setor energético em duas frentes: de um lado, amplia a demanda por eletricidade para sustentar o processamento de dados e a expansão dos data centers; de outro, oferece ferramentas para aprimorar a gestão, a eficiência operacional e a capacidade de resposta das empresas de energia. Essa relação, sintetizada no tema Energy for AI and AI for Energy, foi o eixo central de um painel realizado durante o Energy Summit – 10 Energy Megatrends 2026, que reuniu Hudson Mendonça, Virgínia Feitosa, Natália Vilela e Marcel Saraiva.

O debate evidenciou que a expansão da inteligência artificial depende de uma cadeia de infraestrutura que envolve fornecimento de energia, chips, conectividade, sistemas de refrigeração e instalações capazes de suportar o processamento de grandes volumes de dados. Ao mesmo tempo, os participantes apresentaram aplicações da tecnologia na gestão de ativos, na previsão de eventos climáticos extremos e na melhoria dos serviços prestados à sociedade.

Data centers ampliam a demanda por energia

A expansão dos data centers no Brasil já desperta o interesse de empresas internacionais. Durante o painel, Virgínia Feitosa, diretora de Relacionamento com Clientes de Grande Porte da Axia Energia, afirmou que mais de 30 companhias estrangeiras demonstraram interesse em instalar empreendimentos no País. Segundo ela, dificuldades para obter infraestrutura e energia em tempo hábil nos Estados Unidos têm levado investidores a considerar outras localidades.

Nesse cenário, a disponibilidade de eletricidade tornou-se um fator decisivo para a implantação desses projetos. A executiva destacou que energia, água, tecnologia, chips e infraestrutura são elementos interdependentes. A ausência de qualquer um deles pode comprometer o funcionamento dos empreendimentos.

A importância dos data centers também mudou ao longo dos anos. Inicialmente associados ao armazenamento de dados, eles passaram a integrar serviços em nuvem e, atualmente, sustentam processos essenciais de empresas de diferentes setores. Com o crescimento das aplicações de inteligência artificial, a necessidade de capacidade computacional tende a aumentar, exigindo planejamento para atender à nova demanda.

Natália Vilela, gerente de marketing da ELEA Data Centers, que participou do painel representando o CEO da empresa, Alessandro Lombardi, ressaltou a importância de ampliar a infraestrutura digital em diferentes regiões brasileiras. A estratégia da companhia, segundo ela, considera uma presença distribuída pelo País e a soberania digital, com o objetivo de garantir dessa forma capacidade de processamento dentro do território nacional.

A executiva mencionou a presença da ELEA em nove data centers e o empreendimento em Belém, desenvolvido em conjunto com a Axia. Para Natália, a expansão da inteligência artificial exige instalações preparadas para atender à demanda em diferentes localidades.

Inteligência artificial também transforma a operação de energia

Se a expansão da IA aumenta o consumo de eletricidade, a tecnologia também começa a contribuir diretamente para a gestão do setor energético. Um exemplo apresentado por Virgínia foi a criação, pela Axia, de um centro de monitoramento baseado em inteligência artificial, voltado principalmente à antecipação de eventos climáticos extremos.

A ferramenta auxilia os centros de operação da companhia a adotar uma atuação mais preditiva, considerando assim as condições climáticas e orientando o deslocamento de equipes. A iniciativa busca reduzir o tempo de resposta a ocorrências, minimizar impactos sobre as populações próximas aos ativos e diminuir riscos para as instalações da empresa.

De acordo com Virgínia, a aplicação da tecnologia está relacionada à resiliência climática, à preservação dos ativos e à melhoria da qualidade dos serviços. O exemplo ilustra a outra dimensão do tema discutido no painel: além de exigir energia para funcionar, a inteligência artificial pode contribuir para tornar as operações do setor mais eficientes e preparadas para situações adversas.

Energy for AI and AI for Energy inteligência artificial amplia desafios e oportunidades para o setor elétrico
O mediador Hudson Mendonça coordenou a discussão com os especialistas (Foto: Divulgação)

Infraestrutura precisa acompanhar a evolução da IA

Marcel Saraiva, diretor de GSI (Global System Integrators) para a América Latina na NVIDIA Enterprise, apresentou o conceito das cinco camadas que compõem o ecossistema da inteligência artificial: energia, chips, infraestrutura, modelos e aplicações. Embora o desenvolvimento de modelos e soluções avance rapidamente, as demais estruturas necessárias para viabilizá-los exigem tempo e investimentos.

A construção de linhas de transmissão, a instalação de data centers, os sistemas de refrigeração, a eficiência energética, assim como a segurança das instalações estão entre os fatores que precisam acompanhar o ritmo de expansão da tecnologia. A disponibilidade de chips também representa um desafio: segundo Saraiva, a elevada procura pode levar de seis meses a um ano para a entrega desses equipamentos.

O executivo destacou ainda a possibilidade de implantação de estruturas computacionais em contêineres, solução que pode facilitar a expansão da capacidade de processamento. Como exemplo, citou o supercomputador Santos Dumont, instalado em uma estrutura desse tipo. Os contêineres podem reunir equipamentos de alto desempenho, sistemas de refrigeração em circuito fechado e grande capacidade de processamento em espaços menores.

A adoção desse modelo, entretanto, também demanda adaptações na infraestrutura elétrica e nos equipamentos de transformação de energia. Assim, a implantação de novas soluções depende da atuação coordenada de diferentes segmentos da cadeia.

Curtailment no Nordeste pode abrir oportunidades

Outro ponto discutido foi o aproveitamento da energia que, em determinados momentos, não consegue ser consumida ou transportada para outras regiões devido às limitações da infraestrutura. A situação, conhecida como curtailment, foi apresentada como um desafio econômico e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para a instalação de empreendimentos com elevado consumo de eletricidade.

A proximidade entre data centers e regiões com excedente de geração poderia contribuir para aproximar oferta e demanda, reduzindo parte das limitações existentes. O debate também mencionou o papel de baterias e de mecanismos de flexibilidade para ampliar as possibilidades de aproveitamento da energia disponível.

A localização dos empreendimentos, porém, não depende apenas da existência de geração. A conexão à rede e a disponibilidade de fornecimento firme também influenciam as decisões de investimento, especialmente nos projetos de grande escala.

Custos e regulamentação influenciam a competitividade

A infraestrutura elétrica não é o único fator que pode determinar a capacidade brasileira de atrair investimentos. Durante o painel, Saraiva chamou a atenção para os custos dos equipamentos utilizados em data centers, como servidores, dispositivos de rede, armazenamento e processamento computacional.

Esses componentes, de acordo com o executivo, apresentam custos elevados no Brasil, o que pode comprometer a competitividade dos serviços oferecidos. Como a energia consumida pelos equipamentos se transforma em capacidade computacional e, consequentemente, em produtos e serviços digitais, o custo de operação influencia diretamente o preço final.

Saraiva destacou a importância do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), cuja lei já havia sido sancionada, mas ainda dependia de regulamentação para entrar em operação, conforme informado no debate. A expectativa apresentada é que o regime contribua para reduzir custos e estimular investimentos em infraestrutura computacional no país.

A questão tributária também foi apontada como um obstáculo para projetos de grande porte. Empreendimentos intensivos em investimentos de capital (CAPEX) precisam considerar os custos desde a fase inicial, o que pode influenciar portanto a escolha do País e da localidade onde serão instalados.

Além disso, os participantes destacaram a necessidade de segurança jurídica, regras claras, licenciamento ambiental e maior integração entre empresas, autoridades públicas e comunidades. A construção de diretrizes específicas para diferentes regiões foi considerada importante para dar previsibilidade aos projetos e acelerar a implantação da infraestrutura.

Conexão e energia firme estão entre os principais gargalos

A escolha de onde instalar um data center de grande escala envolve uma equação que combina conectividade e disponibilidade de energia. Um dos participantes observou que, nos projetos hyperscale, a conexão à rede pode ser portanto determinante para a definição da localidade. O desafio é encontrar regiões que reúnam condições adequadas de conexão e fornecimento firme de eletricidade.

A decisão entre priorizar um local com conexão disponível ou buscar uma região com energia firme e, posteriormente, viabilizar a conexão representa uma das questões enfrentadas pelos investidores.

Os participantes também ressaltaram que o Brasil dispõe de recursos energéticos e espaço para receber novos empreendimentos, mas precisa avançar em organização, regulamentação e infraestrutura. A demora na solução desses entraves pode levar empresas a direcionar investimentos para outros países.

Redata pode estimular investimentos em ciência e tecnologia

Além do potencial de reduzir custos para os empreendimentos, o Redata foi apontado no painel como uma oportunidade para estimular investimentos em ciência, tecnologia e inovação. A proposta, conforme explicado durante o debate, combina regras estabelecidas pelo poder público com decisões de investimento tomadas pela iniciativa privada.

A expectativa é que a regulamentação permita colocar o regime em funcionamento e ampliar dessa forma sua contribuição para o desenvolvimento do setor. Os participantes destacaram que a previsibilidade das regras será importante para atrair projetos e fortalecer a cadeia de infraestrutura digital no País.

Rio de Janeiro projeta expansão de data centers

Os participantes também abordaram a expansão da infraestrutura de processamento a partir dos projetos previstos para o Rio de Janeiro. Natália apresentou a iniciativa da ELEA voltada a posicionar a cidade como um centro de criatividade, inovação e inteligência artificial no Brasil.

Segundo ela, o município reúne condições para receber empreendimentos desse segmento, incluindo disponibilidade de energia e espaço para novas instalações. O projeto prevê expansão em etapas, com capacidade em escala de gigawatts nos próximos anos.

A representante da ELEA ressaltou que a concretização dessa iniciativa depende da integração de toda a cadeia envolvida, além do diálogo com prefeituras para a construção de leis e diretrizes que contribuam assim para a implantação dos empreendimentos e o desenvolvimento econômico.

Durante o painel Energy for AI and AI for Energy, os participantes destacaram a crescente interdependência entre a expansão da inteligência artificial e a transformação do setor energético. Para o Brasil, o desafio está em conciliar a disponibilidade de energia com infraestrutura, conectividade, custos competitivos e segurança regulatória. Ao mesmo tempo, a aplicação da IA nas operações pode contribuir para ampliar a eficiência, antecipar riscos e fortalecer a capacidade de resposta das empresas do setor.

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