Com o avanço do armazenamento de energia, o mercado começa a olhar além do uso isolado das baterias e passa a considerar tecnologias e processos que visam garantir a integração, segurança, eficiência e desempenho dos sistemas armazenamento ao longo do tempo.
O avanço dos sistemas de armazenamento de energia em baterias, os chamados BESS (Battery Energy Storage Systems), abre uma nova fronteira para o setor elétrico brasileiro. Mas, à medida que os projetos aumentam de potência e complexidade, uma questão começa a ganhar relevância: a bateria é apenas uma das partes de um sistema muito mais amplo.
Essa foi uma das discussões que vem sendo levantadas por empresas e profissionais do setor elétrico. Em entrevista à Mundo Elétrico, Ricardo Bau, Sales Manager do segmento de Renewableand EPC da Hitachi, destacou que o desenvolvimento desse mercado exigirá uma visão de engenharia que considere não somente as células e módulos de armazenamento, mas também conversão de potência, transformação, proteção, controle, digitalização e integração à rede. A proposta de atuação discutida durante a entrevista considera a integração com diferentes fornecedores, concentrando a engenharia nos equipamentos e sistemas responsáveis por conectar e controlar o BESS.
O tema ganha importância porque o armazenamento começa a deixar de ser analisado apenas pelo custo em função da capacidade de carga. Para investidores, concessionárias e grandes consumidores, questões como disponibilidade, eficiência, confiabilidade, manutenção e capacidade de responder às necessidades da rede podem ser tão importantes quanto o custo inicial das baterias.
Sistemas atuais podem atuar em regulação de frequência, controle de potência ativa e reativa, suporte de tensão, peakshaving, operação ilhada e até black start, dependendo da arquitetura e dos requisitos do projeto.
Visualmente, os contêineres ou gabinetes de baterias costumam ser os elementos mais reconhecidos de um projeto de armazenamento. Tecnicamente, porém, um BESS envolve uma cadeia de equipamentos e sistemas.Dependendo da aplicação, entram ainda transformadores, equipamentos de média e alta tensão, proteção, automação, sistemas auxiliares e diferentes camadas de controle.
Nos sistemas modernos, essa arquitetura também envolve a comunicação entre o BMS (Battery Management System), responsável pelo gerenciamento das baterias, e sistemas superiores de controle e gerenciamento energético.
O crescimento do armazenamento tende a gerar demanda muito além do fornecimento das próprias baterias.Entram nessa discussão estudos de conexão, curto-circuito, seletividade, proteção, qualidade de energia, transformadores, subestações, aterramento, sistemas auxiliares, automação e atendimento aos requisitos técnicos aplicáveis ao ponto de conexão.
Essa complexidade aumenta quando o armazenamento passa a interagir com geração renovável, grandes consumidores ou infraestrutura de recarga.
O mesmo princípio pode ser aplicado a diferentes instalações: quanto maior a quantidade de recursos energéticos conectados, maior se torna a complexidade operacional, maior também a necessidade de uma coordenação inteligente.Decidir quando consumir, gerar, carregar ou descarregar passa a exigir informações praticamente em tempo real.
É nesse ambiente que sistemas de gerenciamento de energia, SCADA, automação, inteligência artificial, ferramentas analíticas e profissionais especializados ganham importância.
“A flexibilidade, a bateria entrega. Porém, sem dados, sem conhecimento, sem equipamento certo, você não consegue operacionalizá-la de uma forma mais eficiente”, afirmou Bau.
Na ótica de investimento, O planejamento de projetos de BESS exige uma visão de longo prazo. Investidores e operadores do setor elétrico avaliam ativos com horizontes de operação de 5, 10, 15 anos ou mais. Nesse contexto, embora o investimento inicial (Capex) seja um fator importante, o custo operacional (Opex) assume um papel decisivo para a sustentabilidade financeira do projeto.
Como o armazenamento de energia em alta escala ainda é uma tecnologia relativamente nova no cenário mundial, prever com precisão o comportamento futuro da operação, da confiabilidade e da disponibilidade dos sistemas pode ser um desafio complexo. Para mitigar esses riscos, a presença de engenharia própria e suporte técnico local torna-se um fator crítico. A existência de recursos locais facilita a manutenção preventiva, correções rápidas de falhas e ajustes operacionais, reduzindo o risco do investimento e assegurando a continuidade do serviço.
É evidente que o custo das baterias continuará sendo fundamental para determinar a viabilidade dos projetos. Mas, à medida que o BESS ganhar escala, a discussão deverá avançar para uma segunda pergunta: como fazer esses ativos conversarem com a rede e entregar, durante anos de operação, exatamente o serviço para o qual foram projetados?
A resposta passa menos por uma tecnologia isolada e mais pela combinação entre engenharia elétrica, eletrônica de potência, automação, software, manutenção e inteligência energética.





