Entre os painéis do Smart Grid 2026, um dos temas debatidos foi a nova interface com o consumidor, que envolve medição, tarifas inteligentes, dados e novos serviços.
Medidores inteligentes, conectividade, dados, tarifas modernas e outros pontos que formam a infraestrutura básica para consumidores ativos, novos serviços, resposta de demanda e gestão mais eficiente de baixa tensão, foram os temas de destaque.
Para comentar esses temas, conversamos com Marcel Martinelli, gerente de Projetos Estratégicos da Equatorial Energia. Ele é graduado em Engenharia Elétrica pela PUC e pós-graduado em MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Tem 24 anos de experiência no setor elétrico, com atuação em automação, proteção e sistemas de supervisão e controle de sistemas elétricos de potência. Ele falou com a Revista Mundo Elétrico e respondeu algumas perguntas sobre o assunto.
Quais são os principais desafios de engenharia e infraestrutura para escalar o Smart Grid hoje?
Um dos principais desafios é preparar a própria rede elétrica para aproveitar todo o potencial do Smart Grid. Em muitas regiões ainda temos redes predominantemente radiais, com poucas alternativas de transferências de cargas. Por isso, a digitalização precisa caminhar junto com a modernização da infraestrutura, ampliando a automação com religadores, reguladores de tensão, bancos de capacitores e outros equipamentos que tornem a rede mais observável, controlável e resiliente.
Outro desafio importante é a escala. O Smart Grid não deve ser visto apenas como substituição de medidores ou instalação de sensores. É necessário desenvolver, de forma coordenada, telecomunicações, sistemas, dados, cibersegurança, processos operacionais e interoperabilidade. O desafio da distribuidora é fazer com que todas essas camadas evoluam de maneira tecnicamente consistente e economicamente sustentável.

Na parte de estrutura e arquitetura para transformar esses dados em eficiência, como vocês estão trabalhando?
O primeiro passo é garantir conectividade e capilaridade para que medidores, sensores e equipamentos de automação instalados em campo estejam efetivamente integrados às plataformas da distribuidora. No Projeto Quantum, estamos trabalhando com uma arquitetura que combina diferentes tecnologias de comunicação. Isso acontece de acordo com a aplicação e as características de cada região, incluindo redes móveis e comunicação por satélites de baixa órbita.
A partir dessa infraestrutura, buscamos integrar essas informações aos sistemas de operação, medição, gestão de equipes de campo, relacionamento com o cliente e demais plataformas corporativas. Um ponto central dessa arquitetura é a interoperabilidade. Ela permite que diferentes dispositivos, tecnologias e fabricantes convivam dentro do mesmo ecossistema e evitam dependências tecnológicas que possam comprometer a sustentabilidade da solução no longo prazo.
E como transformar esses dados em eficiência operacional e reduzir perdas comerciais?
O valor do Smart Grid aparece quando conseguimos transformar dados em informação e, depois, em decisão e ação. No caso das perdas, por exemplo, a medição inteligente permite realizar de forma mais célere balanços energéticos entre diferentes pontos da rede, comparando a energia medida em um transformador com a soma das medições das unidades consumidoras associadas. Como resultado, diferenças persistentes podem indicar regiões que merecem uma investigação mais detalhada.
A inteligência artificial pode ampliar essa capacidade, correlacionando histórico de consumo, eventos dos medidores, características da rede e outras variáveis para identificar padrões e priorizar situações com maior probabilidade de irregularidade. O mesmo conceito pode ser aplicado à qualidade de energia, falhas incipientes, sobrecargas e inconsistências cadastrais. Com isso, avançamos de uma atuação predominantemente reativa para uma operação cada vez mais analítica e preditiva.
De que maneira as tarifas horárias têm se mostrado efetivas para mudar o comportamento do consumidor de baixa tensão?
No Brasil, a adesão às modalidades tarifárias horárias disponíveis para a baixa tensão ainda é limitada. Um dos desafios é oferecer ao consumidor informação suficiente para que ele compreenda seu perfil de consumo, o impacto financeiro das suas escolhas e quais mudanças de comportamento podem efetivamente gerar benefício. Apenas oferecer preços diferentes por horário não necessariamente produz esse entendimento.
A medição inteligente pode mudar esse cenário ao permitir informações mais detalhadas, alertas, simulações e recomendações nos canais digitais. Isso cria condições para uma participação mais ativa do consumidor e abre espaço para novos modelos tarifários e projetos-piloto. O objetivo é construir mecanismos que sejam adequados ao sistema elétrico, mas também simples, transparentes e capazes de gerar valor perceptível para o cliente.





