A transição energética deixou de ser apenas um debate sobre geração renovável. O avanço da eletrificação da economia, o crescimento da demanda por energia, a expansão dos data centers e a necessidade de maior estabilidade das redes colocam a infraestrutura de transmissão no centro das discussões estratégicas do setor elétrico. Nesse cenário, a inauguração do primeiro reator de 460 kV da América Latina a utilizar óleo vegetal como fluido isolante e de refrigeração representa um marco tecnológico importante para o sistema elétrico brasileiro.
O equipamento foi instalado na Subestação Bauru, da ISA Energia Brasil , no interior do Estado de São Paulo, em parceria com a Hitachi Energy. O projeto utiliza uma solução inédita para aplicações em alta tensão: substituir o tradicional óleo mineral derivado de petróleo por um fluido vegetal biodegradável e renovável.
O empreendimento integra um ciclo de modernização da subestação que soma cerca de R$ 190 milhões em investimentos, incluindo reforços operacionais, substituição de equipamentos e atualização de sistemas. Apenas o projeto dos novos reatores representa aproximadamente R$ 18 milhões em investimentos regulados pela ANEEL.
O papel estratégico dos reatores no sistema elétrico
Embora pouco conhecidos fora do ambiente técnico, os reatores shunt possuem função essencial para a estabilidade do sistema de transmissão. Eles atuam na absorção da potência reativa, evitando elevação excessiva de tensão nas linhas, especialmente em cenários de baixa carga ou em sistemas com grandes distâncias de transmissão, uma característica típica da malha elétrica brasileira.
Na prática, esses equipamentos ajudam a garantir que a energia chegue ao consumidor final dentro dos limites operacionais adequados. Eles contribuem assim para a confiabilidade e segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN).
O projeto em Bauru contempla quatro reatores monofásicos de 66,67 megavolt-ampere reativo (MVAr) cada. Cada unidade utiliza aproximadamente 14.700 litros de óleo vegetal, totalizando cerca de 58.800 litros do fluido sustentável.
Segundo Glauco Freitas, Head of South LATAM e Country Managing Director Brazil da Hitachi Energy, a solução faz parte da linha EconiQ, plataforma global da empresa voltada ao desenvolvimento de equipamentos ecoeficientes.
“Já são mais de 3.200 produtos em operação em mais de 31 países. Conseguimos trazer essa tecnologia ao Brasil em parceria com a ISA Energia Brasil para uma aplicação extremamente necessária às linhas de transmissão do País. Ela é aplicável principalmente em linhas de longa distância e com variação de carga, que é o caso no Brasil”, destacou durante a coletiva realizada na inauguração.
Sustentabilidade além da geração renovável
O Brasil já possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com predominância de fontes renováveis. Porém, o desafio atual do setor passa pela redução da pegada de carbono também nos ativos de transmissão e distribuição.
A utilização do óleo vegetal avança justamente nessa direção. Além de ser altamente biodegradável, com índice superior a 99% de biodegradação em cerca de 10 dias, o fluido apresenta menor pegada de carbono em comparação ao óleo mineral de origem fóssil. O produto ainda contribui para redução dos riscos ambientais em caso de vazamentos.
Outro diferencial relevante é a segurança operacional. O óleo vegetal possui ponto de fulgor significativamente superior ao óleo mineral convencional, reduzindo os riscos de incêndio em subestações. O fluido utilizado no projeto possui certificação internacional FM Global para resistência a incêndios.
Mesmo com maior densidade em relação ao óleo mineral, a engenharia da Hitachi Energy conseguiu desenvolver um equipamento otimizado. Ele é capaz de reduzir em aproximadamente 20% a pegada de carbono associada ao uso de materiais e em cerca de 11% as emissões totais ao longo do ciclo de vida da unidade.
Para Rui Chammas, CEO da ISA Energia Brasil, a iniciativa simboliza um movimento necessário de antecipação tecnológica. “Quando falamos que o Brasil vai precisar de mais energia elétrica na sua transição do mundo do hidrocarboneto para a eletricidade, precisamos chegar antes com infraestrutura. E isso exige o uso das melhores tecnologias disponíveis”, afirmou.

Infraestrutura energética diante da nova demanda elétrica
A inauguração do reator acontece em um momento de forte transformação do setor elétrico. A eletrificação crescente da economia, a expansão da geração distribuída, o avanço dos veículos elétricos e, principalmente, o crescimento acelerado dos data centers impõem novos desafios à operação do sistema.
Segundo os executivos das duas companhias, o setor vive uma mudança estrutural no comportamento da rede elétrica. Se antes o fluxo energético era linear e previsível, hoje o sistema precisa lidar simultaneamente com geração intermitente, consumidores que também produzem energia e cargas de alta densidade energética.
“Nosso papel, que antes era absolutamente linear e previsível, hoje é neural. Isso exige muito mais tecnologia nas linhas de transmissão, incluindo baterias, compensadores e soluções avançadas de eletrônica de potência”, explicou Rui Chammas.
A própria função dos reatores ganha ainda mais relevância nesse novo contexto, sobretudo em redes com maior presença de fontes renováveis intermitentes. Além disso, o aumento da demanda energética associado aos data centers exige expansão acelerada da infraestrutura.
Durante a coletiva, Rui Chammas afirmou que a ISA Energia Brasil encerrou 2025 com R$ 5,1 bilhões investidos em expansão e modernização de redes. A empresa prevê mais R$ 12,3 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos.
Já a Hitachi Energy anunciou investimentos superiores a US$ 200 milhões na ampliação de sua capacidade produtiva no Brasil. Ele inclui recursos para a expansão da fábrica de Guarulhos e construção de uma nova unidade em Pindamonhangaba.
A nova planta já será preparada para operar com estruturas laboratoriais dedicadas tanto ao óleo mineral quanto ao óleo vegetal.
Engenharia de alta complexidade
O desenvolvimento do primeiro reator de 460 kV a óleo vegetal da América Latina exigiu uma operação global de engenharia.
Por se tratar de uma aplicação em altíssima tensão, o projeto demandou análises rigorosas sobre comportamento dielétrico, compatibilidade de materiais isolantes, refrigeração e desempenho operacional.
Segundo a Hitachi Energy, as quatro unidades fornecidas para Bauru são os maiores reatores shunt já produzidos pela companhia em escala global.
A fabricação também exigiu adequações logísticas, novos processos industriais, fornecedores especializados e estruturas específicas para manipulação do fluido vegetal.
O movimento da Hitachi evidencia uma tendência cada vez mais presente no setor elétrico: a incorporação de critérios ESG diretamente nos ativos de infraestrutura crítica.
Mais do que apenas reduzir emissões, o desafio agora passa por construir redes mais resilientes, seguras, inteligentes e alinhadas às metas globais de descarbonização.
Um possível novo padrão para o setor elétrico
A adoção do óleo vegetal em equipamentos de alta tensão ainda é considerada uma tecnologia emergente em larga escala. Porém, a experiência da Subestação Bauru pode abrir caminho para novos projetos no Brasil e na América Latina.
A iniciativa também reforça uma mudança importante na visão estratégica das transmissoras. Sustentabilidade deixa de ser apenas um compromisso institucional e passa a fazer parte das decisões técnicas de engenharia.
Esse avanço acontece em um momento em que o setor elétrico brasileiro precisa equilibrar três grandes desafios simultâneos: expansão acelerada da demanda, segurança energética e redução das emissões.
A combinação entre inovação tecnológica e planejamento de longo prazo será determinante para garantir que a infraestrutura acompanhe a velocidade da transformação energética.
Nesse contexto, projetos como o da ISA Energia Brasil e da Hitachi Energy mostram que a transição energética não depende apenas da geração limpa, mas também da modernização sustentável das redes de transmissão. O desafio agora será transformar iniciativas pioneiras em novos padrões de mercado.
E você, acredita que soluções sustentáveis como o uso de óleo vegetal em equipamentos de alta tensão devem se tornar padrão no setor elétrico brasileiro nos próximos anos? Compartilhe sua opinião e experiência com a Revista Mundo Elétrico.





