Smart Grids e mercado aberto o consumidor no centro

Smart Grids e mercado aberto: o consumidor no centro

A transição para um ambiente de maior competição no fornecimento de energia — com a perspectiva de abertura do mercado para consumidores de baixa tensão — tende a marcar uma das mudanças mais relevantes do setor elétrico brasileiro nas últimas décadas. Mais do que uma agenda comercial, trata-se de uma transformação estrutural: o consumidor passa a ser o eixo organizador de estratégias, investimentos e regulação. Em um mercado aberto, com múltiplas ofertas, diferentes modalidades contratuais e novos serviços associados, a escolha deixa de ser apenas “tarifa” e passa a ser “proposta de valor”.

Esse movimento, no entanto, não se sustenta sem uma contrapartida clara: modernização da rede, digitalização, automação e medição inteligente. Colocar o consumidor no centro não é um slogan — é um desafio técnico, econômico e regulatório que exige redes capazes de entregar confiabilidade, resiliência, transparência e flexibilidade em escala.

Competição no varejo e a disputa pelo consumidor de maior porte

A abertura do mercado de baixa tensão, em especial para consumidores de maior porte dentro desse universo, cria um novo campo competitivo para comercializadores varejistas e demais agentes interessados em ofertar energia com condições diferenciadas. Em um cenário assim, o consumidor torna-se alvo de estratégias de aquisição, retenção e relacionamento — algo que historicamente esteve fora do radar do setor regulado tradicional.

A lógica muda: o consumidor compara alternativas, avalia riscos, pondera previsibilidade de custos, demanda canais digitais, quer clareza nas faturas e busca soluções que combinem energia, serviços e gestão do consumo. Para muitos, também entra na equação a agenda ESG, a rastreabilidade da energia e a possibilidade de integrar geração distribuída, armazenamento e veículos elétricos em um mesmo “pacote” de gestão energética.

A distribuidora em transição: de supridora única a provedora de serviços de rede

Com a migração de consumidores de maior porte para o varejo competitivo, mesmo que inicialmente parcial, as distribuidoras deixam gradualmente de exercer, para uma parcela crescente do mercado, o papel de fornecedoras exclusivas de energia. Permanecem, porém, com uma responsabilidade que se torna ainda mais crítica: operar, manter e evoluir a infraestrutura de rede que viabiliza o acesso universal, a qualidade do serviço e a integração segura de novos recursos energéticos.

Nesse novo desenho, a distribuidora tende a ser cada vez mais reconhecida — e cobrada — como provedora de serviços de rede. Isso exige uma revisão profunda de incentivos: a remuneração não pode permanecer excessivamente dependente de investimentos físicos (CAPEX) como principal mecanismo de retorno. Redes operando como plataforma demandam foco crescente em performance, qualidade, digitalização, redução de perdas, eficiência operacional e resultados para o consumidor.

A transição regulatória, portanto, precisa endereçar a pergunta central: quais serviços de rede serão contratados e remunerados, com quais métricas, com quais responsabilidades e com quais mecanismos de incentivo e penalidade? A resposta a essa pergunta definirá o ritmo, a eficiência e a justiça econômica da abertura de mercado.

O paradoxo das receitas: menor faturamento, mesma responsabilidade sistêmica

Há ainda um aspecto frequentemente subestimado: a migração do mercado antes cativo reduz significativamente o faturamento bruto das distribuidoras, já que uma parcela relevante de suas receitas históricas corresponde a repasses associados à energia. Embora isso não se traduza, necessariamente, em piora direta do resultados — por ser, em grande medida, receita “pass-through” —, pode afetar indicadores de relevância econômica, capacidade de alavancagem e condições para captação de recursos.

Em termos práticos, o setor precisa acomodar esse novo equilíbrio para que as distribuidoras continuem tendo capacidade de investimento e financiamento compatíveis com o papel estratégico que exercem. A rede não se torna menos importante com a competição; ao contrário, torna-se mais central, pois passa a ser o “chão” comum onde diferentes ofertas e modelos de negócio se materializam com qualidade.

Redes inteligentes como condição habilitadora do “consumidor no centro”

Não existe abertura eficiente e sustentável do varejo sem redes modernas. A experiência internacional mostra que a competição no fornecimento, quando desacoplada de infraestrutura digital robusta, tende a amplificar problemas: aumento de conflitos de medição e faturamento, dificuldade de portabilidade, baixa transparência de dados, piora na percepção do consumidor e crescimento do custo operacional do ecossistema.

Para que o consumidor esteja de fato no centro, a rede precisa evoluir em várias frentes:

  • Medição inteligente e infraestrutura de dados: base para portabilidade, leitura remota, tarifação mais granular, redução de perdas não técnicas, qualidade de faturamento, detecção de falhas e novos serviços.
  • Digitalização dos processos e serviços: atendimento e jornadas digitais, gestão de solicitações, prazos transparentes, integração com agentes do mercado e interoperabilidade.
  • Automação e maior observabilidade da rede: sensores, telecomando, reconfiguração automática, localização de faltas, redução de DEC/FEC e suporte a maior variabilidade de carga e geração.
  • Requalificação de ativos e arquitetura mais flexível: soluções mais modulares e “leves” onde fizer sentido, modernização de proteção, planejamento orientado por dados e reforços seletivos.
  • Resiliência e confiabilidade como atributos de valor: preparação para eventos climáticos, gestão ativa de contingências, planos de continuidade e melhoria do tempo de recomposição.
  • Integração de recursos energéticos distribuídos (DER): coordenação com geração distribuída, armazenamento, resposta da demanda e veículos elétricos, com regras claras e segurança operacional.

Nesse contexto, smart grids deixam de ser “projeto de modernização” e passam a ser infraestrutura essencial para habilitar novos modelos comerciais e proteger o consumidor dos efeitos colaterais de uma transição mal calibrada.

Educação do consumidor e confiança no novo ambiente

Colocar o consumidor no centro também significa reconhecer que ele precisará de apoio para tomar decisões em um ambiente mais complexo e diverso. O novo mercado traz oportunidades, mas também riscos: perfis de contratação, exposição a variação de preços, cláusulas, fidelização, qualidade de atendimento, serviços agregados, garantias e direitos.

O setor precisará investir — de forma coordenada entre agentes, reguladores e entidades — em educação do consumidor, transparência de informações, padrões de comparação de ofertas e mecanismos de proteção contra práticas oportunistas. Se a confiança do consumidor for abalada nos primeiros ciclos de abertura, todo o processo tende assim a perder legitimidade e tração.

A agenda regulatória: do investimento ao desempenho, do ativo ao serviço

A abertura do mercado de baixa tensão não é apenas uma mudança de “quem vende energia”. Ela exige redefinir os pilares de remuneração e incentivos do segmento de distribuição e do ecossistema ao redor: medição, dados, integração comercial, padrões de portabilidade, responsabilidades por falhas, qualidade, cibersegurança e governança de informações.

A lógica de remuneração predominantemente focada em ativos pode não capturar o valor entregue por redes modernas, digitais e automatizadas — e pode, inclusive, desincentivar ganhos de eficiência e inovação operacional. O desafio regulatório é criar um modelo que remunere adequadamente o que importa para o consumidor: qualidade, continuidade, transparência, agilidade, segurança e capacidade de atender novos serviços.

Um ponto de inflexão para o setor

A abertura do mercado de baixa tensão, somada à digitalização acelerada e à pressão por melhor qualidade de serviço, coloca o setor diante de um ponto de inflexão. O consumidor não estará no centro apenas porque haverá mais opções de compra, mas porque todo o sistema precisará ser redesenhado para servir melhor: com redes inteligentes, governança de dados, novos modelos de remuneração e foco em desempenho.

É nesse cruzamento — competição, modernização e centralidade do consumidor — que se define a próxima etapa do setor elétrico: uma etapa em que a rede deixa de ser apenas infraestrutura e passa a ser plataforma, e em que a experiência do consumidor passa a ser um indicador estratégico de sucesso do modelo.

Se a abertura do mercado de baixa tensão coloca o consumidor no centro, então 2026 será um ano decisivo para entender — e influenciar — como redes, regulação, modelos de remuneração e estratégias comerciais vão se reorganizar. É com esse foco que acontecerá o 18º Smart Grid Fórum Latin América – Fórum Latino-Americano de Smart Grid 2026, nos dias 6 e 7 de outubro de 2026, em São Paulo, reunindo distribuidoras, comercializadores, reguladores, provedores de tecnologia, grandes consumidores e outros “stakeholders” para debater caminhos concretos para a modernização do serviço de energia no Brasil. Mais informações e inscrições em www.smartgrid.com.br

Artigo de Cyro Vicente Boccuzzi, sócio-diretor da ECOEE e presidente do Smart Grid Fórum Latin América
Leia também Cooperação técnica entre Fórum Latino-Americano de Smart Grid e ADELAT fortalece integração do setor elétrico na região
Visited 1 times, 1 visit(s) today

Compartilhe esta postagem

Notícias Relacionadas

Faça uma pesquisa​​

Últimas notícias