A abertura de mercado de energia elétrica costuma ser descrita como uma mudança comercial. Mas, na prática, ela é também uma mudança de infraestrutura invisível: dados, medição e regras de acesso. Sem isso, a competição tende a ser superficial (ou só por preço) e a experiência do consumidor piora exatamente quando deveria melhorar.
Em qualquer mercado competitivo, quem atende o cliente precisa responder rápido a perguntas básicas: quem é o cliente, como ele consome, como prever seu comportamento, como corrigir falhas e como reduzir atrito. No setor elétrico, essas respostas não começam no call center. Começam no medidor — e na capacidade de transformar leitura em informação confiável, no tempo adequado, integrada a processos de atendimento, cobrança e relacionamento.
É aqui que entra a agenda de “open energy”: não como slogan, mas como política prática de disponibilização e uso de dados, com governança, segurança e compliance. Quando medição, telecom e analytics não conversam, surgem três problemas recorrentes. Primeiro, ofertas e segmentações viram “chute”, porque a base de consumo é incompleta ou tardia. Segundo, o atendimento vira reativo: a empresa descobre o problema quando o consumidor já está irritado — e isso destrói confiança. Terceiro, cresce o custo operacional: processos manuais, reconciliação de dados, inconsistências e retrabalho.
A discussão que o setor precisa enfrentar antes de “escalar” o mercado aberto é objetiva: que dados são essenciais para competir com qualidade e segurança? Quais regras, padrões e mecanismos de auditoria permitem que o dado circule sem virar vulnerabilidade? Como conciliar LGPD, interoperabilidade e velocidade? E como garantir que a digitalização não crie assimetria injusta — ou um cenário em que só poucos atores conseguem operar com eficiência?
Este é um debate que não se resolve em tese. Ele exige recortes (arquitetura de dados, integração de sistemas, medição e telecom, governança e compliance, padrões e APIs, casos de uso comerciais e operacionais). E exige também ouvir quem está fazendo — e quem está sofrendo — a transição.
No 18º Smart Grid Fórum Latin América 2026 (6 e 7/10/2026, São Paulo), a proposta é tratar “dados e medição” como fundação do consumidor no centro, e não como apêndice técnico. O objetivo é construir uma pauta que seja útil para executivos, reguladores, utilities e fornecedores — e que ajude a transformar digitalização em serviço real ao consumidor.





