ABREMA e Frente da Economia Verde reúnem lideranças públicas e privadas para defender nova etapa da gestão de resíduos no Brasil
O evento reuniu representantes de diversos setores da sociedade

ABREMA e Frente da Economia Verde reúnem lideranças públicas e privadas para defender nova etapa da gestão de resíduos no Brasil

A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), entidade que representa o setor de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos no Brasil, em parceria com a Frente Parlamentar Mista da Economia Verde, reuniu representantes do governo federal, Congresso Nacional, Judiciário, indústria, empresas e cooperativas de catadores em evento que marcou os 16 anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O grupo discutiu os avanços conquistados desde a aprovação da legislação e os desafios para acelerar a universalização da gestão adequada de resíduos no país.

Realizado com apoio institucional da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o encontro destacou que o setor de resíduos é protagonista da agenda climática brasileira, com destaque para a produção de biometano, a valorização energética dos resíduos e a necessidade de garantir sustentabilidade econômica para as operações municipais.

Durante a abertura, o presidente da ABREMA, Pedro Maranhão, destacou que a entidade nasceu justamente para unificar a representação do setor e ampliar sua capacidade de articulação nacional. “Nosso objetivo é mostrar que as empresas que tratam o lixo são, na realidade, empresas que prestam serviços ambientais. É isso que nós fazemos 24 horas por dia, prestamos serviços ambientais. O resíduo de nossas cidades deixou de ser lixo e virou matéria-prima”, declarou.

Relator da PNRS e presidente da Frente Parlamentar da Economia Verde, o deputado federal Arnaldo Jardim celebrou a atualidade da lei de 2010, associando-a aos recentes marcos aprovados no Congresso, como a Lei do Combustível do Futuro, a desoneração de PIS/Cofins para materiais recicláveis (Lei nº 15.349) e o mercado de crédito de carbono.

“Ao coordenar a elaboração da lei a partir de 148 projetos e reunir visões plurais sem viés ideológico, buscamos construir uma política pública estável e perene, além de pioneira ao introduzir conceitos como ecoeficiência, economia circular e análise do ciclo de vida dos produtos, princípios que surgiram há 16 anos e que hoje fundamentam também a Lei do Combustível do Futuro”, disse o deputado.

Biometano

Um dos destaques foi o potencial do setor para acelerar a descarbonização da economia. Maranhão afirmou que a produção de biometano a partir dos resíduos já representa uma transformação concreta. “O biometano assegura um duplo ganho, porque além de captar o metano, substitui o combustível fóssil. Isso é descarbonização na veia.” O presidente lembrou que o setor já produz cerca de 1 milhão de metros cúbicos de biometano por dia e projeta dobrar esse volume nos próximos anos, apoiado por investimentos bilionários.

A diretora do Departamento de Novas Economias do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Sissi Alvez, informou que o órgão tem trabalhado em programas relacionados ao desperdício de alimentos para incentivar a produção de combustíveis sustentáveis. “São medidas que estão de acordo com a política ambiental para utilização como biometano, pois acreditamos que precisamos avançar nos incentivos para os biocombustíveis”.

Reciclagem

Embora a PNRS tenha transformado a forma como o país enxerga os resíduos, a implementação ainda precisa avançar, especialmente no encerramento definitivo dos lixões, na expansão da reciclagem e na sustentabilidade financeira dos serviços. O diretor de Relações Institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Roberto Muniz afirmou que o setor precisa avançar em transformar a percepção social sobre os resíduos. “Se a sociedade não vê valor nessa atividade, o manejo adequado passa a ser visto como custo, não investimento.”

Muniz lembrou que o Brasil já destina adequadamente cerca de metade dos resíduos coletados, mas que a reciclagem permanece em patamar reduzido. Segundo ele, isso torna a implementação da política o principal desafio dos próximos anos.

A inclusão socioeconômica e a valorização dos catadores foram apontadas como pilares fundamentais para o avanço da reciclagem no país. O presidente da Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT), Roberto Rocha, celebrou o diálogo direto entre a categoria e o setor empresarial impulsionado pela legislação. Ele também defendeu a equalização tributária para fortalecer a cadeia.

“A política nacional traz também nós como atores importantes nesse processo do negócio, e não apenas sob o olhar da assistência social. Hoje, estamos discutindo de igual para igual com todo o setor. Já entendemos que precisamos ter uma tributação diferenciada ou zerada para os recicláveis, pois é um modelo ganha-ganha para toda a sociedade”, destacou Rocha.

Sustentabilidade financeira

Pedro Maranhão defendeu a ampliação do acesso do setor às linhas de financiamento disponíveis para o saneamento básico, incluindo recursos do FGTS e debêntures incentivadas. O presidente informou que a entidade já iniciou discussões com o Ministério das Cidades para corrigir essa assimetria. “Estamos discutindo essa mudança para o setor ter acesso a essas linhas de financiamento. Elas vão ajudar muito o setor de resíduos sólidos e, consequentemente, a saúde, o meio ambiente e a qualidade de vida.”

No centro dos debates, no entanto, esteve a necessidade de garantir sustentabilidade financeira aos serviços municipais. A promotora do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público do Estado do Piauí (Caoma/MP-PI), Áurea Madruga, destacou a necessidade de se cumprir a lei e implementar a cobrança pela geração de resíduos. “Em nossas pactuações e acordos com as prefeituras no Piauí, inserimos a obrigação de os gestores proporem à Câmara Municipal a lei de cobrança pelo serviço. É uma forma de mostrar ao cidadão a sua responsabilidade na produção do resíduo e garantir a viabilidade financeira da gestão adequada” relatou.

O Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Márcio Leão, enfatizou a necessidade de o poder público municipal instituir cobranças específicas e adequar normas para garantir a sustentabilidade dos serviços e o acesso a financiamentos. “O FGTS é uma importante fonte para o setor, mas a regra atual atende apenas concessões longas, de 20 a 30 anos. Como muitas empresas operam por contratos administrativos de 5 anos, elas não conseguem acesso ao financiamento”,afirmou.

Já o Secretário Nacional de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Adalberto Maluf, destacou o papel do Fundo Clima e da Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR) para atrair investimentos. “Fechamos mais de 400 lixões no último ano, alcançando quase 70% dos municípios com destinação adequada. Nossa proposta é que o Fundo Clima também passe a financiar a construção de aterros sanitários”, defendeu. “Acredito que a LIR será uma grande transformadora. Com R$ 500 milhões garantidos ao ano em renúncia fiscal, teremos R$ 5 bilhões em poucos anos. O valor supera tudo o que já foi investido na história do setor”, acrescentou Maluf.

O conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Ilan Presser, destacou a importância da cooperação interinstitucional. Ele também ressaltou que a efetividade jurídica é essencial para a viabilidade da PNRS. O juiz federal ressaltou que a legislação precisa ser traduzida em resultados concretos para a sociedade. Ele destacou também o papel do Judiciário na mediação de conflitos estruturais.

“O mais difícil é transformar a normatividade em experiência prática. O Poder Judiciário precisa deixar de focar apenas na produção de sentenças e atuar na resolução de problemas estruturais. Isso pode ser feito de forma cooperativa com o Ministério Público, o setor privado e os entes federados”, afirmou Presser.

COP31

A ABREMA anunciou que pretende ampliar a atuação internacional após a experiência da COP30. A entidade já articula, junto ao Ministério das Cidades e empresas do setor, uma agenda voltada à COP31. O objetivo é apresentar projetos concretos de descarbonização por meio da substituição de combustíveis fósseis por biometano produzido a partir dos resíduos urbanos.

Pedro Maranhão lembrou que a capacidade de transformar resíduos em energia, combustível renovável e novos insumos coloca o Brasil em posição privilegiada na economia de baixo carbono. “Não é ideia, não é meta para o futuro. É uma descarbonização que já é realidade e está acontecendo. Vamos fazer isso ter repercussão mundial”.

O evento “Resíduos Sólidos: 16 Anos da Política Nacional” ainda teve a presença de Celso Pedroso, CEO da Solvi; Hugo Nery, CEO da Marquise Ambiental; Ismar Assaly, presidente do Conselho de Administração da Orizon Valorização de Resíduos; Tomás Toledo, presidente da CETESB; Rafael Risso de Barros, vice-presidente do Instituto Nacional de Reciclagem (Inesfa); Karina Araújo Souza, diretora do Ministério de Minas e Energia; e José Valverde, CEO da Ambiente Valverde.

ABREMA e Frente da Economia Verde reúnem lideranças públicas e privadas para defender nova etapa da gestão de resíduos no Brasil
Participantes do seminário 16 Anos da Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS)
Leia também Com mercado cinco vezes maior desde 2020, setor de biometano chega a 20 plantas autorizadas e acelera expansão no Brasil
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