A expansão da inteligência artificial (IA), o aumento da demanda por eletricidade e a integração de diferentes fontes e tecnologias estão entre os fatorese megatendências que devem transformar o setor energético mundial nas próximas décadas. As mudanças abrangem desde o fornecimento de energia para data centers e o armazenamento em larga escala até a aplicação de robôs no pré-sal, o desenvolvimento de combustíveis renováveis, a fusão nuclear e a geração solar no espaço.
Essas transformações são analisadas no relatório 10 Energy Megatrends 2026, produzido pelo Energy Summit e pela MIT Technology Review Brasil, com apoio da Deloitte. O levantamento parte dos debates e das apresentações técnicas do Energy Summit Global 2026. E também de uma triagem de mais de 60 macrotendências tecnológicas e regulatórias. As dez megatendências identificadas devem orientar investimentos, políticas públicas e decisões estratégicas do mercado até 2050.
O estudo contempla tecnologias em diferentes estágios de desenvolvimento. A inteligência artificial aplicada à energia e os sistemas de armazenamento e flexibilidade estão entre as tendências com perspectivas de avanço mais imediato, entre 2026 e 2028. Já a fusão nuclear e a geração de energia no espaço têm horizontes mais distantes, que podem chegar a 2045 e 2050, respectivamente.
Um dos pontos de atenção é o consumo de eletricidade dos data centers, que poderá ultrapassar 950 TWh em 2030. Citados no relatório, os dados são da Agência Internacional de Energia (IEA). O crescimento da demanda computacional torna portanto a disponibilidade de energia um fator determinante para a expansão da economia digital. Paralelamente, a inteligência artificial oferece recursos para aprimorar a eficiência dos sistemas elétricos.
Para Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, o cenário exige uma abordagem que combine diferentes soluções para atender às novas necessidades do setor. “O que estamos vendo agora é diferente. A demanda por energia vai crescer junto com a inteligência artificial, a eletrificação, a digitalização e a reindustrialização. Isso exige adicionar soluções, combinar tecnologias e construir assim um sistema muito mais flexível, integrado e resiliente”, comenta.
Essa perspectiva está alinhada ao conceito de adição energética, adotado pelo estudo. Segundo essa abordagem, o crescimento da demanda e a busca pela descarbonização exigirão a incorporação de novas fontes, tecnologias e infraestruturas. Além de novos modelos de negócio, em vez de uma transformação baseada exclusivamente na substituição de uma fonte por outra.

As dez megatendências
O relatório identifica dez frentes que abrangem a digitalização dos sistemas elétricos, o armazenamento de energia, os recursos minerais, a automação industrial, os combustíveis de baixa emissão e tecnologias ainda experimentais.
- Energia para a IA e IA para energia (2026–2028): A expansão dos data centers aumenta a necessidade de energia firme, limpa e contínua. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial passa a contribuir para melhorar a previsão da geração renovável, o planejamento e a operação dos sistemas elétricos. No Brasil, a matriz renovável e a infraestrutura de transmissão representam vantagens competitivas, desde que acompanhadas de investimentos e maior agilidade nas conexões à rede.
- Flexibilidade e armazenamento em escala (2026–2028): Baterias, sistemas de armazenamento de longa duração, resposta da demanda e usinas virtuais ganham relevância com a expansão das fontes renováveis variáveis. A capacidade de armazenar, distribuir e gerenciar eletricidade de acordo com as necessidades do sistema passa a ter valor estratégico. O avanço dessa frente exige modelos regulatórios e de remuneração adequados.
- Minerais críticos e valor industrial (2027–2032): Lítio, terras raras, nióbio e níquel ganham importância nas cadeias de produção. Principalmente de baterias, motores elétricos e materiais avançados. A principal oportunidade brasileira, segundo o estudo, está em avançar da extração mineral para o processamento, o refino e a fabricação de produtos com maior valor agregado.
- Robótica e inteligência artificial física em óleo e gás (2026–2030): Robôs submarinos, sensores inteligentes, sistemas autônomos e gêmeos digitais ampliam as possibilidades de automação das operações offshore. A experiência brasileira em águas ultraprofundas, especialmente no pré-sal, pode favorecer portanto o desenvolvimento e a aplicação dessas tecnologias.
- Soluções baseadas na natureza e bioeconomia florestal (2026–2029): A conservação, a restauração florestal, o manejo sustentável e as tecnologias de monitoramento ambiental podem impulsionar assim novos modelos econômicos. Para transformar o potencial natural em projetos economicamente viáveis, o relatório destaca a necessidade de mecanismos de rastreabilidade, integridade ambiental e financiamento.
- Biorrefinarias avançadas e combustíveis renováveis (2026–2030): O combustível sustentável de aviação (SAF), o biometano, o diesel verde (HVO), assim como o etanol de segunda geração ganham espaço em atividades nas quais a eletrificação direta enfrenta limitações. A disponibilidade de biomassa e a experiência do setor sucroenergético posicionam dessa forma o Brasil como potencial protagonista dessas cadeias.
- Infraestrutura para mobilidade elétrica e híbrida flex (2026–2029): A expansão dos veículos elétricos e híbridos exige investimentos em infraestrutura de recarga, integração à rede e novos modelos de abastecimento. No Brasil, a combinação entre eletrificação e biocombustíveis abre portanto caminhos complementares para reduzir as emissões no transporte.
- Fusão nuclear (2035–2045): Considerada uma tecnologia de ruptura, a fusão por confinamento magnético busca abrir uma nova fronteira para a geração de energia firme e de baixa emissão. Apesar dos avanços científicos, a aplicação comercial em larga escala ainda depende da superação de desafios tecnológicos e econômicos.
- Energia no espaço (2038–2050): A geração solar em órbita e o desenvolvimento de microrreatores orbitais representam possibilidades ainda experimentais de produção e fornecimento de energia. O estudo aponta que a infraestrutura espacial e a capacidade científica brasileira podem criar oportunidades de participação nessas tecnologias de longo prazo.
- Hidrogênio verde marítimo e combustíveis sintéticos (2030–2038): As rotas Power-to-X permitem converter eletricidade renovável em produtos como amônia e metanol de baixa emissão. Eles têm aplicações potenciais na navegação e na siderurgia. A infraestrutura portuária e a disponibilidade de energia renovável podem favorecer o desenvolvimento dessa cadeia no País.
Brasil tem vantagens, mas precisa ampliar investimentos
Além de identificar as tendências globais, o relatório avalia as condições brasileiras para participar dessas transformações. Entre os principais diferenciais estão a matriz elétrica com mais de 85% de participação renovável e a disponibilidade de biomassa. Além das reservas minerais estratégicas, a experiência tecnológica em operações offshore e a infraestrutura portuária.
Essas vantagens, porém, não são suficientes isoladamente. Para ampliar a participação nas novas cadeias energéticas, será necessário avançar em regulação, financiamento, infraestrutura, pesquisa aplicada e capacidade industrial.
“O Brasil aparece nessas tendências não por uma única vantagem, mas pela combinação de várias delas. Temos energia renovável, biomassa, recursos minerais, conhecimento acumulado no offshore, assim como uma indústria capaz de desenvolver novas cadeias. O ponto central agora é transformar potencial em execução e fazer governo, empresas, academia, investidores e empreendedores avançarem na mesma direção”, enfatiza Mendonça.
A avaliação utiliza o modelo de cinco agentes do ecossistema de inovação do MIT REAP: governos, corporações, universidades, capital de risco e empreendedores. A metodologia permite examinar a maturidade de cada tendência e identificar assim quais atores têm maior capacidade de impulsionar seu desenvolvimento.

Modernização das redes e inteligência artificial
A integração de tecnologias também é apontada como um fator decisivo para a evolução do setor. Patricia Muricy, sócia-líder para a indústria de energia, recursos naturais e industriais da Deloitte, destaca a convergência entre digitalização, novas fontes energéticas, armazenamento, combustíveis de baixa emissão e tecnologias avançadas.
Nesse contexto, a executiva considera fundamental modernizar as redes elétricas e os sistemas de monitoramento e operação para garantir assim confiabilidade, eficiência e resiliência. A inteligência artificial terá dessa forma papel importante na ampliação da capacidade de previsão, otimização e tomada de decisões em um ecossistema cada vez mais integrado, dinâmico e orientado pela inovação.
“As megatendências mostram que a transformação do setor energético será impulsionada pela convergência entre digitalização, novas fontes de energia, armazenamento, combustíveis de baixa emissão e tecnologias avançadas. Nesse contexto, a modernização das redes elétricas e dos sistemas de monitoramento e operação torna-se portanto fundamental para garantir confiabilidade, eficiência e resiliência. A inteligência artificial terá papel decisivo ao ampliar dessa forma a capacidade de previsão, otimização e tomada de decisão em um ecossistema cada vez mais integrado, dinâmico e orientado pela inovação”, afirma Patricia.
O relatório conclui que a próxima fase do setor energético será marcada não apenas pelo desenvolvimento de novas tecnologias, mas também pela capacidade de integrá-las ao sistema existente. As decisões tomadas nos próximos anos poderão assim influenciar o posicionamento competitivo de empresas e países nas décadas seguintes.





