Flash Charging chega ao Brasil e eleva a recarga elétrica à escala do megawatt
O Flash Charging utiliza armazenamento local de energia associado a um sistema inteligente de gerenciamento

Flash Charging chega ao Brasil e eleva a recarga elétrica à escala do megawatt

A eletromobilidade brasileira começa a entrar em uma nova etapa, na qual o desafio já não é apenas ampliar o número de carregadores, mas oferecer potência, disponibilidade e uma experiência de abastecimento comparável à dos veículos a combustão. Foi com essa proposta que a Denza, divisão premium do Grupo BYD, apresentou pela primeira vez no Brasil o Flash Charging, durante o Festival Interlagos. O lançamento ocorreu no dia 27 de agosto de 2026, em São Paulo.

Segundo informações divulgadas pela fabricante, o sistema pode fornecer até 1.500 kW por conector CCS2, permitindo adicionar até 400 quilômetros de autonomia e elevar a bateria de 10% a 70% em cinco minutos, ou de 10% a 97% em nove minutos, desde que o veículo seja capaz de receber essa potência.

Por trás dos números, entretanto, está talvez o aspecto mais relevante para o setor elétrico: a potência entregue ao automóvel não precisa vir integralmente e de forma instantânea da rede de distribuição. O Flash Charging utiliza armazenamento local de energia associado a um sistema inteligente de gerenciamento, criando uma espécie de buffer energético entre a rede e o veículo.

É justamente essa arquitetura que pode tornar a tecnologia particularmente interessante para um país no qual a disponibilidade de potência elétrica ainda representa um dos principais obstáculos à implantação de eletropostos ultrarrápidos.

Em entrevista à Revista Mundo Elétrico, Renato Siqueira, Diretor de Desenvolvimento de Rede e Soluções de Carregamento da BYD, explicou que a configuração apresentada no Brasil possui dois bancos de baterias de 190 kWh cada, totalizando 380 kWh de armazenamento. Segundo ele, os módulos utilizam a segunda geração da tecnologia Blade Battery da BYD.

Na prática, a lógica é semelhante à de uma infraestrutura de recarga associada a um BESS — Battery Energy Storage System. A rede fornece energia dentro da capacidade disponível no ponto de conexão, enquanto o armazenamento acumula energia para posteriormente complementar a potência demandada durante uma sessão de recarga ultrarrápida.

“Eu não pego 1 mega de energia da rede e injeto no carro. É quase impossível fazer isso no Brasil”, explicou Siqueira durante a entrevista.

A declaração evidencia um dos principais diferenciais técnicos da solução. Implantar carregadores na faixa de megawatts utilizando exclusivamente a potência instantânea da rede poderia exigir reforços expressivos na entrada de energia, transformadores, cabos, proteções e, dependendo da localização, até obras na rede da distribuidora.

No Flash Charging, a bateria estacionária ajuda a desacoplar parcialmente essas duas grandezas: potência disponível na rede e potência instantaneamente entregue ao veículo.

De acordo com Siqueira, o equipamento apresentado pode operar com alimentação entre 200 kW e 500 kW, necessitando de entrada trifásica em 380 V. Uma terceira cabine concentra o sistema responsável por administrar os fluxos entre rede elétrica, armazenamento e bateria do automóvel.

Isso não elimina a necessidade de estudos elétricos, demanda contratada, proteção, qualidade de energia e avaliação da capacidade do ponto de conexão. Mas pode reduzir significativamente a barreira de infraestrutura para levar carregamento de altíssima potência a locais onde uma conexão direta na mesma ordem de grandeza seria técnica ou economicamente difícil.

A arquitetura também abre espaço para outra evolução: a integração com geração fotovoltaica.

Flash Charging chega ao Brasil e eleva a recarga elétrica à escala do megawatt
César Ribeiro, presidente do Conselho Editorial da Revista Mundo Elétrico, Renato Siqueira, Diretor de Desenvolvimento de Rede e Soluções de Carregamento da BYD e um funcionário da empresa

Siqueira confirmou que a empresa já desenvolve projetos para incorporar energia solar ao ecossistema. Nesse cenário, o eletroposto deixa de ser apenas uma carga elétrica de elevada potência e passa a operar como um pequeno sistema energético composto por geração, armazenamento, conversão de potência, controle e consumo.

Do ponto de vista econômico, essa combinação pode criar novas estratégias para reduzir custos de energia e demanda, principalmente quando o BESS é carregado em períodos mais favoráveis e descarregado durante os picos de utilização dos carregadores. A viabilidade, entretanto, dependerá do perfil de utilização da estação, tarifa, capacidade da conexão, dimensionamento das baterias e estratégia operacional.

Também existe um ganho de resiliência. Segundo o executivo, a energia acumulada permite manter capacidade de carregamento mesmo diante de interrupções temporárias da alimentação externa, dentro dos limites de energia disponível no armazenamento.

A inovação não está restrita à eletrônica de potência.O terminal possui estrutura em formato de “T”, com cabos suspensos por polias. Um sistema descrito pela fabricante como de “gravidade zero” reduz o esforço necessário para movimentar o cabo de alta potência, permitindo inclusive seu manuseio com uma mão.

Esse detalhe ganha importância à medida que aumenta a potência dos carregadores. Cabos destinados a grandes correntes tendem a impor desafios de peso, ergonomia e gerenciamento térmico, e a experiência do usuário passa assim a fazer parte da própria engenharia da estação.

O equipamento também suporta Plug & Charge, tecnologia que permite ao sistema identificar automaticamente um veículo compatível e simplificar autenticação e pagamento, reduzindo a dependência de aplicativos e etapas adicionais.

O objetivo final é aproximar a experiência do elétrico daquela já conhecida pelo motorista de veículos convencionais: chegar, conectar, esperar poucos minutos e seguir viagem.

O lançamento ocorre em um momento favorável para esse tipo de infraestrutura. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e da Tupi Mobilidade apontam que o Brasil chegou a 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga em maio de 2026, crescimento de 20,7% em apenas três meses.

Ao mesmo tempo, a base de veículos cresce rapidamente. Entre janeiro e julho de 2026 foram comercializados 271.091 veículos eletrificados no Brasil, volume que já supera em 21% todas as vendas registradas durante 2025, segundo a ABVE.

Esse crescimento tende a deslocar a discussão da simples disponibilidade de carregadores para outro indicador: quanto tempo o usuário precisa permanecer conectado.

Em rodovias, aeroportos e estações de alta circulação, reduzir uma sessão de dezenas de minutos para poucos minutos significa aumentar a capacidade de atendimento do mesmo ponto físico. Para operadores de eletropostos, isso pode representar dessa forma maior giro dos ativos; para concessionárias rodoviárias e empreendimentos comerciais, menor formação de filas; e, para o motorista, viagens mais previsíveis.

Neste contexto, a expansão planejada pela Denza é ambiciosa. A primeira unidade será instalada em uma concessionária da marca em Brasília e a estratégia prevê levar a tecnologia inicialmente à rede Denza e, posteriormente, avançar sobre estações de recarga, rodovias, aeroportos e outros locais estratégicos. “A meta anunciada é chegar a 1.000 equipamentos no Brasil até o final de 2027”, comenta Siqueira.

O Denza Z9 GT será o primeiro modelo comercializado no país preparado para explorar plenamente o Flash Charging. Entretanto, como o terminal utiliza CCS2, outros veículos compatíveis também poderão utilizá-lo, respeitando, naturalmente, o limite de potência determinado pelo sistema de carregamento de cada automóvel.

Esse ponto é importante: um carregador de 1,5 MW não significa que qualquer veículo receberá 1,5 MW. A potência resulta da comunicação e dos limites estabelecidos pelo automóvel, bateria, estado de carga, temperatura e estratégia do sistema de gerenciamento.

Talvez, a contribuição mais relevante do Flash Charging para o mercado brasileiro esteja além dos nove minutos anunciados. A solução sinaliza uma mudança conceitual na infraestrutura de eletromobilidade: em vez de simplesmente solicitar cada vez mais potência da distribuidora, armazenamento, geração local e gerenciamento inteligente podem passar portanto a fazer parte do projeto elétrico dos eletropostos de alta potência.

Para um país continental, que precisa eletrificar corredores rodoviários e expandir a infraestrutura para regiões com diferentes níveis de disponibilidade da rede, essa arquitetura pode ser particularmente relevante.

Ainda haverá questões econômicas importantes a responder, sobretudo CAPEX do armazenamento, vida útil das baterias, número de ciclos, perfil de utilização, tarifas e retorno do investimento. Mas a direção tecnológica parece clara.

Se a primeira fase da eletromobilidade foi marcada pelo aumento da autonomia dos veículos, a próxima disputa pode acontecer fora deles: quem conseguir entregar energia de maneira mais rápida, inteligente e integrada à rede terá assim papel decisivo na experiência do motorista elétrico.

E, nesse cenário, carregar um automóvel em poucos minutos deixa de ser apenas uma questão de potência. Passa a ser um problema, e uma oportunidade de engenharia energética.

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