Enquanto todos os olhares estão voltados para Brasília, à espera de uma definição regulatória para o futuro mercado brasileiro de superbaterias, o mercado internacional de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), tanto híbridos quanto standalone, já opera em escala industrial em diversas partes do mundo.
Projetos híbridos de 3,9 Gigawatt-hora (GWh) de BESS e 1,95 Gigawatt (GW) de energia solar, como o assinado pela empresa norueguesa Scatec no Egito — o projeto Energy Valley — no último mês de janeiro, estão sendo contratados para garantir segurança energética para países, empresas e cadeias de suprimentos, seja para estabilizar a rede elétrica ou apoiar novas estratégias industriais.
Para discutir os diversos aspectos dessa tecnologia disruptiva, capaz de estabilizar grandes sistemas elétricos nacionais, a Scatec reuniu a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Di Blasi e Parentes Associados em São Paulo para um encontro com a imprensa.
No Brasil
Os sistemas BESS já são objeto de consulta pública pelo governo. Investidores nacionais e internacionais aguardam seu resultado para avaliar a viabilidade técnica e econômica de futuros projetos sob o futuro arcabouço regulatório.
“Os novos modelos de negócio viabilizados pela futura regulação devem contemplar a remuneração dos sistemas de armazenamento pelos múltiplos serviços que prestam. Eles podem armazenar energia quando os preços estão mais baixos ao longo do dia e despachá-la nos momentos de maior demanda. Além disso, contribuem para o equilíbrio do sistema elétrico, evitando apagões e oscilações, ao mesmo tempo em que permitem a manutenção de uma ‘reserva’ energética e reduzem a sobrecarga nas linhas de transmissão”, explica Aleksander Skaare, gerente-geral da Scatec, multinacional norueguesa de energia renovável que opera três usinas solares de grande porte no Brasil.
Encruzilhada
Segundo o executivo, a encruzilhada regulatória enfrentada pelas autoridades brasileiras está longe de ser simples. Estabelecer regras que garantam equilíbrio entre os diversos stakeholders envolvidos no uso dessa tecnologia — geradores, operadores de transmissão e grandes consumidores, entre outros — já seria desafiador.
“Os novos modelos de negócio viabilizados pela futura regulação devem contemplar a remuneração dos sistemas de armazenamento pelos múltiplos serviços que prestam. Eles podem armazenar energia quando os preços estão mais baixos ao longo do dia e despachá-la nos momentos de maior demanda. Além disso, contribuem para o equilíbrio do sistema elétrico, evitando apagões e oscilações, ao mesmo tempo em que permitem a manutenção de uma ‘reserva’ energética e reduzem a sobrecarga nas linhas de transmissão”, observa Skaare. “Uma questão central é como esses serviços serão remunerados. É essencial que o Brasil alcance um equilíbrio técnico, econômico e financeiro entre todos os agentes envolvidos”, acrescenta.
Paradoxo
De acordo com Fábio Lima, diretor-executivo da ABSAE, o Brasil vive atualmente um paradoxo energético: apesar de níveis recordes de geração renovável, o país enfrenta um “apagão de capacidade” nos horários de pico. Sem baterias para armazenar o excedente de energia solar e eólica, o sistema recorre a usinas térmicas fósseis, mais caras e poluentes.
Os dados da ABSAE também indicam que mais de um quinto da energia gerada a partir de fontes eólica e solar no Brasil está sendo restringida para preservar a estabilidade da rede. “Há momentos em que a rampa de geração – ou seja, a rápida entrada de energia na rede devido aos picos de produção solar – chega a 23 GW em apenas quatro horas. O sistema não consegue absorver. Essa falta de flexibilidade ao longo do dia é hoje o maior risco para o sistema elétrico brasileiro”, afirma.
Outros usos do BESS no mundo
Em outros países, a tecnologia BESS tem sido adotada em larga escala. No Egito, o BESS atua como infraestrutura estratégica para fornecer energia firme ou suavizar variações de rampa provenientes de fontes renováveis (solar e eólica), contribuindo para a estabilidade da rede.
“A integração de BESS aos projetos solares permite que parte da energia gerada nos momentos de pico seja despachada posteriormente, nos períodos de maior demanda”, explica Ivan Hobbs, vice-presidente global de Engenharia da Scatec.
“No projeto Energy Valley, somos responsáveis pela construção, assim como pela operação de um complexo híbrido com 1,95 GWp de geração solar acoplados a 3,9 GWh de armazenamento”, acrescenta. Segundo Hobbs, as unidades de BESS estão localizadas em três diferentes regiões – Minya, Nagaa Hammadi e Alexandria – para mitigar gargalos estruturais de transmissão na rede nacional egípcia.
“Do ponto de vista da engenharia, sistemas de armazenamento de energia em baterias em larga escala não se limitam a armazenar elétrons – tratam de controlar o despacho e a estabilidade dentro da rede. O BESS permite assim que países desacoplem geração e consumo, absorvam a variabilidade das fontes renováveis e despachem energia firme e confiável exatamente quando necessário.”
Hobbs também destaca que, com presença em cinco continentes, a Scatec já possui dois sistemas híbridos de BESS em operação – Magat, nas Filipinas, e Kenhardt, na África do Sul. Juntos, eles têm capacidade para armazenar 1,2 gigawatt-hora de energia.
A empresa também conta com nove projetos adicionais com BESS, incluindo o Obelisk no Egito, em construção ou no pipeline, totalizando 5,4 gigawatt-hora no curto prazo em três países (Egito, África do Sul e Filipinas), contribuindo para uma experiência total em BESS de 6,6 GW (resultados do 4º trimestre).





