Inteligência artificial exige que o Brasil escolha seu futuro energético

Inteligência artificial exige que o Brasil escolha seu futuro energético

A inteligência artificial cresce em ritmo acelerado, mas o debate sobre seu impacto energético ainda é tímido no Brasil. A tecnologia exige volumes colossais de eletricidade e água, tanto no treinamento quanto na operação de modelos, criando pressões que poucos países estão preparados para enfrentar. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers já consomem 415 TWh por ano, 1,5% de toda a eletricidade mundial, e esse número pode dobrar até 2030. A cada consulta feita a sistemas de inteligência artificial, um gasto invisível de energia e recursos se soma à conta global.

O Brasil poderia transformar esse cenário em vantagem estratégica. Mais de 80% de sua matriz elétrica vem de fontes renováveis, segundo o Ministério de Minas e Energia. O patamar é muito superior ao de países industrializados dependentes de carvão e gás. Isso deveria colocar o país na linha de frente da construção de um polo global de data centers sustentáveis. No entanto, o que se observa é uma ausência de planejamento estratégico e de políticas públicas claras para aproveitar essa posição. A oportunidade de unir inovação e sustentabilidade pode se perder no silêncio da agenda nacional.

Enquanto o Brasil hesita, outras economias já se movem. A União Europeia estabeleceu a meta de tornar os data centers neutros em carbono até 2030 dentro do European Green Deal. Nos Estados Unidos, estados como Virgínia e Oregon estruturaram clusters de data centers atrelados a energia renovável e atraíram investimentos bilionários com incentivos fiscais. Países como Irlanda e Países Baixos, pressionados pelo aumento do consumo, adotaram regras rígidas de eficiência para evitar sobrecargas. Esse contraste expõe o atraso brasileiro e evidencia que a janela de oportunidade não ficará aberta por muito tempo.

O Brasil poderia dar um passo decisivo criando marcos regulatórios que estabeleçam padrões claros de eficiência energética, condicionando a concessão de licenças à adoção de fontes renováveis adicionais e incentivando a descentralização de data centers em regiões com maior potencial solar e eólico. Tais medidas não apenas diminuiriam os riscos de sobrecarga nas hidrelétricas, mas também fortaleceriam cadeias produtivas locais e ampliariam a infraestrutura digital do país, tornando-o mais resiliente e competitivo.

Os benefícios de um polo de data centers sustentáveis se estendem além da energia. A iniciativa poderia gerar empregos altamente qualificados em engenharia, tecnologia e cibersegurança, atrair centros globais de pesquisa e desenvolvimento. Além de posicionar o Brasil como exportador de serviços digitais, agregando valor à economia e reduzindo a dependência de tecnologia e infraestrutura estrangeira. Seria uma oportunidade de transformar inovação e sustentabilidade em vantagem estratégica, com impactos positivos de longo prazo para o país.

Estamos diante de uma encruzilhada. O Brasil pode se consolidar como referência em tecnologia limpa, unindo sua matriz renovável a políticas públicas de inovação, ou repetir o padrão histórico de exportar recursos naturais e importar valor agregado. O custo energético da inteligência artificial é concreto e crescente, e ignorá-lo significa abdicar de uma liderança global que está ao alcance, uma liderança que poderia redefinir o papel do país na economia digital mundial.

Artigo de Franklin Tomich, sócio-fundador da Accordia
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